É domingo e chove. Por isso me dei à paciência e ao tempo (escassos ambos) para ir lendo na blogosfera algumas opiniões sobre o escritor que neste blogue nos referimos.
Uma primeira opinião, de uma ainda-não-leitora que toca em algumas partes importantes sobre a interpretação do homem que é António Lobo Antunes, anotando uma peculiar característica dos portugueses.
A segunda opinião, de José António Barreiros, este leitor do escritor mas mal encarado com o homem, e que dá o exemplo (o braço a torcer?) que muitos deviam seguir: não confundir a obra com o escritor. Estas palavras são minhas, mas depois de lerem o seu depoimento compreenderão porque o digo assim.
Duas opiniões à partida divergentes, mas que convergem na essência: António Lobo Antunes é um homem e um escritor que, quer se queira quer não, é uma das maiores personalidades do nosso tempo.
1. Não gostar de António Lobo Antunes. Blogue Random Thoughts, autoria: Madrigal, 15.10.2009
"Há uns anos vi uma entrevista com o António Lobo Antunes e fiquei absolutamente fascinada por ele, tanto que fui comprando os seus livros e até fui a uma sessão de autógrafos no já distante ano de 2004. Antes da sessão propriamente dita, o Lobo Antunes falou e respondeu a algumas perguntas, fiquei ainda mais fascinada e de sorriso nos lábios, quando ele ao autografar os livros não o fazia de uma forma mecânica e sim demorada, olhando os livros, com certeza devia de querer apreciar as capas já que eram edições e livros diferentes.
Contudo até à data ainda não li nada, vou adiando de dia para dia, de mês para mês, de ano para ano... No fundo porque tenho receio de me desiludir, é um bocado como estar apaixonada por um amigo e temer perder essa amizade por o amor não ser correspondido.
Em blogs, foruns encontro muitas acusações a Lobo Antunes, que é arrogante, convencido, vaidoso e todas aquelas coisas simpáticas que se dizem de alguém de quem não se gosta.
Além disso existem ainda acusações que ditam que os livros dele não prestam, alguns ainda reconhecem o mérito de um ou outro livro, mas se Lobo Antunes se tivesse dedicado à psiquiatria é que tinha feito um bem à sociedade.
Reconheço que nós, seres humanos, na nossa diversidade gostamos de coisas diferentes e se eu deliro a ouvir o grupo X, isso não significa que o meu vizinho também goste. Mas no caso do Lobo Antunes tanta má língua, tantas acusações faz-me pensar noutra coisa: a famosa dor de cotovelo que tanta gente parece sofrer.
Possivelmente, e aqui baseio-me em opiniões que já li, a escrita de Lobo Antunes, não será muito fácil e logo exigirá um esforço maior, não será concerteza o indicado para a ler no comboio, no percurso casa - escola ou trabalho. Daí uma primeira tentativa resultará em frustação e ao inevitável abandono do livro. Isto até podia ser verdade para um outro autor, mas lembrem-se que estamos a falar de Lobo Antunes cuja a fama de ser arrogante o procede e é português. Todos sabemos que encontramos mais facilmente pessoas que leram a obra toda de um qualquer escritor estrangeiro a terem lido sequer um livro de um escritor português. Assim, está em causa um certa arrogância por parte do leitor e um certo embarasso em admitir uma verdade simples: não consigo entender este gajo, bem podia ter ido plantar batatas a escrever livros. É por isso que acho que no fundo existe aqui uma dor de cotovelo, eu não consigo gostar então o problema não está em mim mas nele e a isso acrescenta-se o velho adágio, é português, não presta, etc, etc.
Acredito que não há melhor qualidade do que admitir que não somos capazes, mas infelizmente os portugueses não são assim. Em vez de admitirem as suas limitações gostam é de atirar pedras..."
2.
Que Cavalos São Aqueles..., de António Lobo Antunes. Blogue António Rebelo da Silva, autoria: José António Barreiros, Outubro de 2009
"Violento-me para ser justo, porque o acho detestável de tão vaidoso, voyeur do seu próprio exibicionismo, a tentar seduzir pela decadência e a consegui-lo, mas, admito, a sua escrita é admirável, mesmo quando é o leitor a construir, lendo, o que ele não escreveu mas sabe-o e intromete-se na própria escrita para confessá-lo e nisso é sério porque não tem ilusões quanto ao que anda a fazer da nossa paciência e diz «eis o António Lobo Antunes a saltar frases não logrando acompanhar-me».
Comecei esta manhã a ler Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?e julgava que era o último livro dele até me assustar ao ver que tinha menção a que era a 4ª edição, mas depois compreendi que ele edita muito ou a editora chama nova edição ao que é uma reimpressão e manda reimprimir muitas vezes para parecerem mais as edições e já estou a dizer mal por não gostar dele, «a detestá-lo por me desarrumar o passado» mas tenho de ser justo mesmo que me violente.
E é, dizia, uma escrita admirável, em que o edifício das palavras e das frases e dos períodos e dos parágrafos implodiu e o leitor caminha, semi-cego pela poeira «poeira que demorava a cair ocultando-nos de nós mesmos e ao ocultar-nos de nós mesmos não éramos», em que entre os escombros verbais e o desabar gramatical surgem, densos e a escorrer, os sentimentos e as recordações a ensarilharem-se na leitura e um mundo que já foi de «escadas dos cartórios quase tão gastas como a minha mãe», e há uma mãe que morre e um notário para os ossos da família roídos e nele «uma empregada de aliança, mas viúva no coração».
A frase «cavalos fazendo sombra no mar» vem na página 19 e daí o título do livro e eu vou na página 46, parei agora para tomar fôlego, entre toiros «farejando a própria urina e as próprias fezes não as reconhecendo, farejando o próprio cheiro e investindo contra si mesmo porque o cheiro mudara» e vim aqui escrever o que estou a sentir.
Deus te perdoe a arrogância, mesmo que sejas neste livro o Francisco, irmão da Beatriz, António Lobo Antunes que eu lerei tudo quanto escreveste, e escreveste já muito, lerei juro se tiver tempo mas falta-me tempo ante tanta escrita - e ainda há os outros, que também há outros escritores - e «tanta angústia nos relógios, tanta vontade de alcançar o tempo», mas angustiado embora, lerei."